Arte

Nojo e angústia na arte

Verifica-se que o incômodo é uma pauta recorrente aqui no Sete. Falamos sobre o assunto através do José J. Veiga no texto da Andreza Modesto e no relato da Fernanda Figueiredo de sua visita à exposição que clama pela liberdade do Rafael Braga.

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Hoje volto a colocar o dedo na ferida e retomo a citação que Andreza empregou: “Um livro pouco pode fazer para corrigir injustiças: se conseguir causar desassossego, já conseguiu alguma coisa” (José J. Veiga), mas alargarei essa ideia para abranger a arte no geral.

Por vezes, a arte desliza suas longas unhas no quadro negro, esfrega seus talheres na louça do prato produzindo sons estridentes; é um fio de cabelo no sabonete, um cílio que caiu dentro do olho e tem textura de teia de aranha. Mas, não sei por quais forças atrativas, nos voltamos à ela mesmo assim.

Selecionei duas obras que já me estorvaram para breves comentários.

Estorvo – Chico Buarque

            estorvo, estorvar, exturbare, distúrbio

            perturbação, torvação, turva, torvelinho

            turbulência, turbilhão, trovão, trouble

            trápola, atropelo, tropel, torpor, estupor

            estropiar, estrupício, estrovenga, estorvo

É assim que Chico Buarque nos apresenta ao seu primeiro romance, “estorvo”, amontoando palavras que indicam os desconfortos de sua obra. Nós prosseguimos na leitura 1) para atender à impulsos autodestrutivos, 2) ingenuidade ou 3) pela sedução da simples lembrança de como são lindos os olhos do autor.

                                                                                olhos                                                                    screenshots deste vídeo

“Estorvo” é o primeiro romance de Chico Buarque, o que podemos perceber se já tivermos algum conhecimento prévio de sua obra literária. A narrativa, quando comparada a “Leite Derramado” ou “Budapeste”, por exemplo, denuncia um romancista ainda em construção desbravando a nova linguagem.

O livro é um estorvo sobre nossas mãos. A perspectiva que nos guia é a de um protagonista embotado, que parece ser empurrado de maneira irritantemente passiva a situações constrangedoras. Causa-nos a sensação de impotência diante de acontecimentos inconcebíveis e desdenha de nós com o seu intuito de incomodar.

Nível de perturbação: ★ ★

 Salò ou 120 dias de Sodoma – Pier Paolo Pasolini

Baseado no livro “120 dias de Sodoma” do escritor Marquês de Sade, esse filme do diretor italiano Pasolini é o mais polêmico entre os polêmicos. Ambientado na Itália sob o regime de Mussolini, mostra um grupo de jovens selecionados por dirigentes fascistas para sofrerem todo tipo de humilhação e sadismo – que é, aliás, um termo derivado do nome Marquês de Sade.

Salò nos mostra que não há nojo e repulsa que sejam inenarráveis. Dividido em três partes, “Círculo das Manias”, “Círculo de Fezes” e “Círculo de Sangue”, o filme é uma representação do nível que o ser humano pode atingir quando em exercício de plenos poderes.

 Nível de perturbação: ★★★★★

Para quem está interessado em angústias culturais, indico os filmes “Festim Diabólico” (Alfred Hitchcock), “Irreversível” (Gaspar Noé) e Melancolia (Lars Von Trier). E você? Qual angústia adora e indica?

Importante: consultar indicação de faixa etária antes de se aventurar nas obras!

 

 

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