Literatura

A realidade assustadora em O Conto da Aia

Nos últimos meses muito tem se falado sobre o livro O Conto da Aia, da escritora canadense Margaret Atwood. O lançamento da série homônima, produzida pela Hulu, a leitura feita pela atriz Emma Watson em seu famoso clube do livro e a reedição da distopia pela Editora Rocco colocaram a obra publicada em 1985 em grande destaque no mundo todo. Resenhas foram feitas e inúmeras entrevistas com a autora foram veiculadas; mas qual é o motivo de tanto destaque?

O livro é uma distopia – gênero que evidencia as piores características de um governo, o totalitarismo, por exemplo, e narra suas consequências; pode ser considerado uma antiutopia – e conta a história de uma mulher chamada Offred, vivendo na República de Gilead, originalmente a região dos Estados Unidos da América. Devido a um golpe aplicado por um grupo cristão fundamentalista, os direitos das mulheres são completamente massacrados. A Casa Branca é atacada e a Constituição, extinta; por causa da degradação do meio-ambiente e de doenças sexualmente transmissíveis, a maioria das mulheres passa a ser estéril e a taxa de natalidade despenca. A partir daí o grupo que assume o governo começa a sequestrar mulheres férteis e trancá-las no Centro Vermelho, um lugar onde as “prisioneiras” aprendem a função das Aias, sofrem uma lavagem cerebral e se não colaborarem, são violentamente castigadas.

Após o treinamento, as Aias eram enviadas para as famílias dos Comandantes, homens do alto escalão do governo. Dentro da casa havia três categorias de mulheres: as Marthas, a Esposa e a Aia; as Marthas tinham a função de cozinhar e cuidar das tarefas da casa; a Esposa era casada com o Comandante, mas algumas delas eram estéreis; portanto, a função da Aia era ter relações sexuais com o Comandante para que um bebê fosse gerado e entregue aos cuidados da Esposa. Como o país vira uma teocracia, o “ritual”, chamado de Cerimônia, era feito de acordo com os versículos do livro de Gênesis 30: 1-5, que diziam:

“Vendo, pois, Raquel que não dava filhos a Jacó, teve Raquel inveja de sua irmã e disse a Jacó: Dá-me filhos, senão morro. (…) E ela disse: Eis aqui minha serva Bila; entra a ela, para que tenha filhos sobre os meus joelhos, e eu assim receba filhos por ela. Assim, lhe deu a Bila, sua serva, por mulher; e Jacó entrou a ela. E concebeu Bila e deu a Jacó um filho.”

As Aias vestiam-se de vermelho e usavam uma touca branca com abas na cabeça, para que não pudessem ver o seu rosto; elas não podiam ler, escrever, se comunicar com outros homens e nem sair desacompanhadas. Andavam sempre em duplas para que pudessem ser constantemente vigiadas por outra Aia. Além disso, elas assumiam outra identidade: passavam a adotar o nome de seu Comandante, acompanhado da preposição “of”, que indica posse. Então, Offred era, literalmente, “Do Fred”. Para que não tivessem a chance de fugir ou de cometer suicídio, os quartos das Aias eram cuidadosamente pensados: janelas com grades e vidros grossos, nenhum objeto cortante e sem lustres no teto.

A atualidade do enredo

O enredo assusta pois descreve horrores vividos pelas Aias que podem ser vistos na nossa realidade. Essas mulheres, antes do golpe demonstrado no livro, tinham liberdade para ser mães, esposas e trabalhar com o que gostavam; após o país tornar-se uma sociedade completamente patriarcalista viraram servas, mulheres sem voz e sem direitos, estupradas todo mês com o consentimento das autoridades. Vivemos em um estado que se diz livre e laico, porém alguns julgamentos encontrados dentro do governo totalitário e teocrático do enredo são praticados na atualidade. Como exemplo, segue o trecho:

“É Janine, contando como foi currada por uma gangue aos catorze anos e fez um aborto. Ela contou a mesma história na semana passada. (…) Mas de quem foi a culpa?, diz Tia Helena, levantando um dedo roliço. Dela, foi dela, foi dela, foi dela, entoamos em uníssono. Quem os seduziu? Tia Helena sorri radiante, satisfeita conosco. Ela seduziu. Ela seduziu. Ela seduziu. Por que Deus permitiu que uma coisa tão horrível acontecesse? Para lhe ensinar uma lição. Para lhe ensinar uma lição. Para lhe ensinar uma lição. Na semana passada Janine explodiu em lágrimas. Tia Helena a fez ajoelhar na frente da turma, com as mãos atrás das costas, onde todas podíamos vê-la, o rosto vermelho e o nariz pingando. (…) Aquilo foi na semana passada. Nesta semana Janine não espera que comecemos com as zombarias. Foi minha culpa, diz ela. Foi minha própria culpa. Eu os incitei, os seduzi. Mereci o sofrimento. Muito bem, Janine, diz Tia Lydia. Você é um exemplo.”

A prática de culpabilizar a vítima ainda é, infelizmente, muito comum. Em casos de estupros de mulheres de qualquer idade, raça ou credo, as principais perguntas ainda são “Mas que roupa você estava usando?”, “Você estava sozinha?” ou “Tem certeza que você não deu abertura para que ele fizesse isso?”. A mesma justificativa utilizada em O Conto da Aia, muitas vezes é análoga a usada atualmente quando o homem comete crimes sexuais: o instinto irrefreável diante de uma mulher. Essa panorama é assustador, pois desperta o medo de que a situação não melhore no futuro; dessa forma a escritora nos lembra quão frágeis a democracia e os nossos direitos podem ser.

No enredo de Atwood as mulheres eram oprimidas, situação semelhante à nossa realidade. O que garante a semelhança entre o fictício e o real são as situações que a escritora descreve: várias delas foram retiradas dos noticiários, circunstâncias verdadeiras que aconteceram pelo mundo. Os principais casos mostrados pela autora e que ocorrem até hoje são:

  • o estupro marital: em Singapura, o sexo sem consentimento dentro do casamento é legalizado quando a esposa tem mais de 13 anos;
  • casando com seu estuprador: no Líbano, até o mês de fevereiro deste ano, os estupradores podiam escapar da acusação se casassem com suas vítimas. A lei foi derrubada em resposta às reivindicações da sociedade civil;
  • a propriedade patriarcal: na Arábia Saudita as mulheres precisam obter a permissão dos homens para trabalhar, estudar, casar, viajar, abrir uma conta bancária ou buscar tratamento médico. Além disso, elas não podem ter nenhuma propriedade em seu nome;
  • o analfabetismo feminino: no Paquistão são comuns os ataques às mulheres que tentam pegar o ônibus da escola. O caso Malala é o mais conhecido.

Estes são só alguns exemplos da opressão feminina que enfrentamos até hoje. É por esse motivo que O Conto da Aia tornou-se um livro tão atual e comentado; sua assustadora realidade fez com que as mulheres enxergassem o perigo de terem os direitos cerceados por uma sociedade patriarcal. O enredo é fictício, mas serve de alerta para que nós prestemos atenção no cenário político e nas decisões que são tomadas em nossos nomes. O livro é de 32 anos atrás, mas apresenta uma atualidade brutal.

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