Exposições

É osso

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Obra Sem título, de Bené Fonteles, que faz parte da exposição Osso.

É osso saber que Rafael Braga – o moço negro, carioca, pobre e catador de latas – foi preso nas manifestações de junho de 2013, no Rio de Janeiro, por estar carregando dois potes: um de desinfetante e outro de água sanitária. É osso saber que ele – justamente o moço – por estar carregando esses dois potes, foi condenado à pena de 4 anos e oito meses em regime fechado. Em dezembro de 2015, ele progrediu ao regime aberto, por preencher requisitos legais. Em janeiro de 2016, foi preso novamente por, segundo o policial, ter sido flagrado com 0,6 g de maconha, 9,3 g de cocaína, e um rojão.

É osso Rafael alegar ter sido vítima de violência e extorsão policial e ninguém escutar. É osso saber que há contradição entre os depoimentos dos policiais e, segundo o Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD),  a testemunha que afirma que Rafael não portava as drogas no momento da detenção, teve seu depoimento desacreditado pelo juiz. É osso. É osso que tenha sido condenado a 11 anos e três meses de prisão por tráfico de drogas e associação para o tráfico de drogas.

E não é um caso isolado. O vice-presidente do IDDD e advogado criminal, Hugo Leonardo, explica: “o jovem é um símbolo da crescente população prisional brasileira. A história de Rafael é semelhante àquelas de tantos outros jovens que não conseguem se livrar de um direito penal cada vez mais amplo e violento. Rafael representa, ainda, o angustiante destino cíclico da população periférica egressa do sistema prisional”.

É osso. É duro. É difícil de engolir. A impotência dói. Mas a arte pode resistir e insistir. A OSSO Exposição-apelo ao amplo direito de defesa de Rafael Braga expõe dados, estatísticas, papéis, números. Racismo. O mais insensível, no mínimo, estranha o julgamento do rapaz. Para os sensíveis, tem mais: pedras que imitam grades e prego pregado em livro, que nos fazem sentir um frio na espinha. A gente sente no osso.

 

Sentimos com a ajuda de outros grandes artistas. Destaco algumas obras que me saltaram aos olhos. Em uma grande sala com apenas uma iluminação central, encontramos o Cruzeiro do Sul (1969), de Cildo Meireles: um cubo de madeira de 9 milímetros apresentado diretamente sobre o chão. A abstração de um cubo tão pequeno numa sala grande contrasta com as faixas gritantes em um outro ambiente: “O racismo é estrutural”, obra de Graziela Kunsch, que criou a faixa com a mesma linguagem das  do Movimento Passe Livre.

Quando é hora de sair agradecida, um lembrete de Vitor Cesar estampa na porta: “artista é público”. Todos somos. O que fazemos com nossos ossos?

Serviço:
A exposição está em cartaz no Instituto Tomie Ohtake (avenida Faria Lima, 201, no bairro de Pinheiros) até o dia 30 de julho, das 11h às 20h. Entrada grátis.

Categorias:Exposições

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