Música

Playlist: as 10 melhores músicas da MPB

Como bem disse Nelson Motta no livro “101 canções que tocaram o Brasil”, lançado em 2016 pela editora Estação Brasil, “as 101 melhores ou mais bonitas, ou mais importantes canções brasileiras não existem”. De fato, qualquer escolha que envolva algum tipo de arte é totalmente subjetiva e pessoal. Podemos usar inúmeros critérios, classificações, suposições, mas todos os julgamentos carregarão uma imensa carga de pessoalidade e injustiça. O conceito de “música boa” e “música ruim” só faz sentido para o ouvido que a escuta e a personalidade que a internaliza. Nós mesmos mudamos de gosto tantas vezes durante a vida: idolatramos Xuxa e Galinha Pintadinha; nos rebelamos com o rock; nos apaixonamos com os pagodes, sertanejos, sambas; nos acalmamos e entristecemos com a MPB, a bossa nova;  nos embalamos com o blues, o jazz. Amadurecemos nossas almas e tímpanos. Preciso dizer tudo isso para justificar a minha petulância ao criar essa lista: as 10 melhores músicas da MPB, meu gênero preferido. Preciso reforçar: as escolhas são total e meramente pessoais. Não há qualquer pesquisa, consulta, dados, métricas ou CENSO. É a minha lista e não a fiz sem sofrer. Drummond dizia que “escrever é cortar”, em qualquer faculdade de jornalismo ou na vida, aprendemos isso insistentemente e com razão, mas cortar neste caso nunca doeu tanto. Essa lista é uma opinião e como toda opinião merece duas coisas: respeito e discordância. A escolha de fazer essa seleção tem dois intuitos principais: abrir um diálogo nesse espaço que foi feito para isso e mostrar um tanto de mim por aquilo que, como disse Nietzsche, se não existisse faria da vida um erro. Vou me abster de comentários técnicos que minha alma e mente musicista insistem em ressoar, a emoção foi a DJ. Aperte o play e comece a discordar:

1) Águas de Março

Composta por Tom Jobim em 1972, essa canção é, para mim, a que mais representa a supremacia brasileira em compor. Mais do que “Garota de Ipanema”, “Águas de março” é aquela canção que faz qualquer estrangeiro tirar o chapéu para o talento brasileiro. A versão mais recente que ouvi desta música é a do CD “Coleção”, da Marisa Monte em dueto – mesclando português e inglês – com David Byrne. Fantástica. No entanto, a interpretação imbatível será sempre de Tom Jobim com Elis Regina.

2) Se eu quiser falar com Deus

Gilberto Gil compôs essa canção em 1981, eu não era nem nascida, e não tenho dúvida que será um dos hinos eternos da música popular brasileira. “Se eu quiser falar com Deus” tem a peculiaridade de ser extremamente humana. Dificilmente existe no mundo alguém que em algum momento da vida, independentemente das crenças e religiões  – ou falta dela – que escolha, não tenha se feito questionamentos profundos tão bem expressados pela letra impecável e arrepiante de Gil.

3) Resposta ao Tempo

Composta por Aldir Blanc e Cristovão Bastos em 2006, “Resposta ao tempo” tem o mesmo mérito que “Se eu quiser falar com Deus”, trata de um assunto comum a qualquer ser humano: a relação aflitiva com o tempo. Descrevendo um diálogo entre o tempo e uma pessoa, é genial ao concluir que o tempo jamais amadurece, ao contrário de nós.

4) Roda Viva

Composta por Chico Buarque em 1968, “Roda Viva” é aquilo que chamamos de um clássico. Eu poderia fazer uma lista só com Chico Buarque, ele é meu compositor preferido. Mas, os critérios que usei nesta lista – misto de beleza e importância musical no Brasil – Chico fica em quarto com essa canção tão representativa da história desse país. Não vou me alongar nas explicações históricas, mas indico a leitura de “Histórias de Canções – Chico Buarque” do Wagner Homem da Editora Leya para compreender a grandiosidade desta e de todas as outras letras de Chico.

5) O bêbado e o equilibrista

Por falar em História, composta por Aldir Blanc e João Bosco, essa canção nos lembra de forma contundente e extremamente poética o que nunca devemos esquecer. A época da Ditadura foi marcada por grandes canções de resistência e essa é, talvez, a mais emblemática delas. Cantada com maestria pela excepcional Elis Regina, não poderia faltar nesta lista.

6) O mundo é um moinho

Composta por Cartola em 1978, essa canção é uma das mais tristes letras da música popular brasileira. Escrita para a filha do cantor,  “O mundo é um moinho” não deixa intacto nenhum coração que já tenha passado por qualquer desilusão na vida, ou seja, tritura a todos. A interpretação emocionante de Cazuza é a minha versão preferida.

7) O quereres

Caetano Veloso é outro que poderia ter uma lista só para ele. Rivaliza com Chico Buarque como o grande nome da música popular brasileira. No entanto, “O Quereres”, composta em 1984, para mim tem uma construção poética formidável. A incompatibilidade amorosa, do qual não temos como fugir, em uma poesia musicada muito sofisticada. Uma obra-prima.

8) Rosa

E por falar em poesia… Rosa, que até hoje não se sabe ao certo quem compôs a letra nem quando, é o exemplar mais apropriado para afirmar que poesia e música são intrínsecas e indissociáveis. É a música-declamação mais romântica que a MPB conhece.

9) É o que me interessa

Nem só de tempos longínquos vive a música popular brasileira, um dos maiores compositores contemporâneos deste país é Lenine. “É o que me interessa”, lançada em 2008,  talvez seja a escolha mais pessoal de toda essa lista, a letra é a melhor definição de tudo o que permeia a minha personalidade e ambições. Um hino particular.

10) Axé Acapella

Composta por Luísa Maita e Dani Black, essa canção é a que, provavelmente, causará mais estranhamento, mas justifico a colocação. “Axé Acapella” é a que melhor define o momento da música popular brasileira. Gravada por Maria Gadú no belíssimo CD “Mais uma página”, recheado de canções fortes e críticas aos vários destemperos modernos, essa canção nos alerta para o rumo da sociedade e da própria música, que desaprendeu que para ouvir é preciso também fazer silêncio.

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