Comportamento

Por que escrevo?

“Por que eu escrevo?
Porque eu preciso.
Porque minha voz,
em todos os seus dialetos,
foi silenciada por tempo demais.”

(Jacob Sam-La Rose, em tradução livre)

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Escrever não é fácil. E olha que eu sou jornalista e feminista, e isso deveria me dar algum encorajamento ou, no mínimo, segurança para expor um conjunto de palavras. Mas eu sei que essa dificuldade é justificável e não é só minha. É comum, quando perguntamos para as mulheres sobre sua escrita, muitas – que escrevem – responderem com desdém: “ah, tenho um blog, mas não mostro para ninguém”, “escrevo nos meus cadernos”, “só de vez em quando”.

Acho que não por acaso, algumas vezes, sinto que preciso justificar por que escrevo. A sensação é de que tenho que provar o tempo todo que isso pode ser lido, publicado, mostrado, falado. Inclusive, que eu posso falar. Sim, podemos. E devemos.

A narrativa da humanidade, há séculos, é majoritariamente contada por homens. Mesmo que sejamos muitas. Muitas diferentes. Mas nunca fomos as donas da caneta dessa história. Então, quando paramos para escrever, paramos também para perceber quem somos, quem vamos nos contar e nos construir. E isso não é fácil: arrancar o discurso do outro sobre nós, para podermos existir (e nos contar) a nossa maneira.

Foi isso que moveu a escritora  Svetlana Aleksiévitch no seu livro “A guerra não tem rosto de mulher”. Ela foi atrás de soldadas soviéticas que lutaram durante a Segunda Guerra Mundial . “Tudo o que sabemos da guerra conhecemos por uma ‘voz masculina’. Somos todos prisioneiros de representações e sensações ‘masculinas’ da guerra. Das palavras ‘masculinas’. Já as mulheres estão caladas. (…) Se de repente começam a lembrar, contam não a guerra ‘feminina’, mas a ‘masculina’.”

Então entramos nas questões de feminilidade. O que é uma escrita feminina? O que é ser mulher? Para Maria Rita Kehl, mulher se define com o sexo biológico: vagina. “Mesmo pessoas transgênero, ao nascer, a primeira coisa que o médico diz: é menina ou menino? Pronto. Essa é nossa primeira noção de identidade. Homem e mulher é uma definição muito básica, muito calcada no biológico, com a qual você se identifica desde a certidão de nascimento. Independentemente de você mudar isso no futuro ou não. E feminilidade é o modo como você se transveste de mulher. E isso muda em cada cultura, tribo, país. (…) é uma construção de estilo.”

Nascemos marcadas. Contadas. E tantas vezes projetadas. Mesmo depois de Simone de Bouvair, Virginia Woolf, Clarice Lispector, Jane Austen, Carolina Maria de Jesus, e tantas outras, ainda há muito chão, muito teto e muito corpo. Porque tudo que precisamos saber, carregamos. Mas ainda buscamos nas palavras dos outros o que dizer sobre nós.

O caminho é longo. Uma pesquisa feita pela doutora Regina Dalcastagnè, analisou 258 romances de autores e autoras brasileiras publicados de 1990 a 2004 por três importantes editoras do País, e buscou traçar um perfil dos escritores e dos personagens da literatura brasileira contemporânea. A conclusão de Dalcastagnè não é novidade, mas os números assustam: dos autores dos romances analisados, 72,7% são homens, 93,9% brancos, 47,3% moram no Rio de Janeiro e 21,2% em São Paulo.

Me pergunto: quem são esses homens? Por que escrevem? O que eles tem de diferentes de mim? De você, de nós? Quem “validou” a escrita deles? Quem “valida” a minha? Então eu lembro que só eu vivi o que eu vivi. E ninguém, nesse mundo inteiro, sabe mais disso do que eu. Escrevo. E me construo em busca da pluralidade e sinceridade que desejo no mundo. Preciso recontar essa história. 

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