Lares

O parto de Judite

Eram cerca de onze da manhã de um domingo quando a minha mãe irrompeu no quarto. “Corre! A gata começou a parir!” Levantei num sobressalto, tateando a cama à procura dos óculos. Corri pela casa, subi as escadas e cheguei ao quarto da minha irmã, que há anos voou pra longe e gentilmente permitiu que seu cantinho se tornasse uma espécie de lar temporário para a gata e seus filhotes.

Dois deles já haviam nascido. Quando cheguei ao quarto, ela os lambia incessantemente. Um deles era preto como a mãe. O outro também era preto, mas tinha manchas acobreadas pelo corpo. Eles ainda estavam molhados, cobertos em líquido amniótico e, agora, saliva.

A gata nos olhava com um cansaço aparente nos olhos. Mal havia dormido naquela noite – entre gemidos e grunhidos, andava perdidamente pelo quarto, claramente desconfortável. Minha mãe a chamava de “Vida”. Eu, de “Judite”. Minha irmã, de “Jabuticaba”. O nome não importava muito, já que ela ficaria conosco apenas até que todos os filhotes fossem amamentados e doados – inclusive ela.

O fato é que ela aparecera na frente de casa explodindo de grávida cerca de duas semanas antes. Nada incomum. Quem gosta de gato atrai situações assim, e nós já havíamos ajudado uma boa quantidade de gatinhos. Mas nunca uma grávida. Após alguns dias deixando comida na garagem, ficou decidido que ela seria mantida isolada num quarto e teria todo o conforto para poder parir com a segurança e dignidade que toda mãe, de qualquer espécie, necessita. E assim foi.

Perdi o momento do terceiro filhote por distração enquanto olhava alguma coisa no celular. Quando me dei conta, uma pequena tricolor em tons de preto, branco e alaranjado já estava entre eles. Mas o quarto nascimento eu vi. É que a partir de certo ponto, o parto hipnotiza. De acordo com a veterinária, a gata ainda não tinha um ano de idade e provavelmente engravidara no seu primeiro ou segundo cio. No entanto, ela sabia exatamente o que fazer. E eu não conseguia mais desviar os olhos. Fiquei de canto, olhando curiosa, tal qual uma criança impressionada.

Ela virou pra mim e soltou um miado longo. Então eu vi aquele serzinho que mais parecia um rato branco surgindo no mundo, envolto em uma fina membrana transparente, o cordão umbilical ainda ligado à placenta. Judite imediatamente começou o processo de limpeza do seu neném. Cortou o cordão umbilical, comeu a placenta, aninhou a quarta cria junto às outras.

A quinta recém-nascida era parecida com a terceira, tricolor. Por último, outro bebê preto com manchas acobreadas. Entre um nascimento e outro, havia um espaço de aproximadamente trinta minutos, durante os quais a gata se revezava entre os filhotes já nascidos. Ela nos olhava serenamente de dentro da caixinha improvisada que virou seu ninho, com a confiança de quem sabe que foi salvo.

Gatos nascem esfomeados. Mal começam a se mexer fora do útero e já procuram avidamente as tetas da mãe. Judite, que acostumou-se com carinhos da minha mãe na sua barriga, parecia incomodada com a violência dos recém-chegados, que se amontoavam uns sobre os outros. Então nós passávamos as mãos pela sua barriguinha e ela se esticava toda, aparentemente apaziguada pelo afago.

Não é necessário ser muito sensitivo para conseguir observar a mudança de energia em uma casa com vidas recém-chegadas. Basta prestar atenção. A diferença é nítida. Durante os dias seguintes, observar a nova família tornou-se o nosso passatempo favorito. Uma vez, entrei furtivamente no quarto para dar uma espiada e flagrei minha mãe sentada na cama de frente para o ninho com um prato de frutas picadas no colo, comendo e olhando absorta, os lábios esboçando um sorriso. Até meu pai, mais contido e com medo de nós quebrarmos a promessa de que a estadia dos nossos hóspedes seria apenas temporária, parecia meio abobado enquanto olhava pra eles.

Hoje eles completam uma semana de vida. Sete dias atrás, seis novos mundos foram criados e um mundo foi reinventado. Sete vidas salvas a partir de um “sim, eu te respeito e eu te acolho”.

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