Literatura

O desassossego em “A Hora dos Ruminantes”

WhatsApp Image 2017-07-23 at 00.20.19“Um livro pouco pode fazer para corrigir injustiças: se conseguir causar desassossego, já conseguiu alguma coisa” (José J. Veiga)

A hora dos ruminantes faz parte da coletânea de obras literárias do escritor goiano José J. Veiga. No ramo das pesquisas acadêmicas, o primeiro contato obtido com o autor, foi através de uma professora de literatura. Desde o primeiro contato, A hora dos ruminantes tem sido o motivo pelo qual venho dedicando meu tempo, para a leitura e o inevitável envolvimento com as personagens do livro.

Dividido em três capítulos: 1. A chegada; 2. O dia dos cachorros; 3. O dia dos bois. Iniciado com a chegada repentina de homens considerados estranhos, na terra localizada do outro lado do rio na pequena e longínqua Manarairema. Em seguida cachorros e bois se alastram e ocupam a vila, desarticulando o espaço e impedindo os moradores de transitarem, tranquilamente, pelas ruas. O surgimento de falatórios, curiosidades e indagações fazem parte da construção narrativa, iniciada a partir da chegada de homens e animais.

A paisagem naturalista é plano de fundo, completada pelos residentes da vila. Antecipadamente, destaco o meu apego fortíssimo pelos significados dos nomes das personagens e a admiração pela escolha de cada um. Ao voltarmos para os moradores de Manarairema, encontramos alguns personagens como o genioso e sorridente Geminiano, do latim, aquele que geme; ou de geminus, gêmeos. Aquele que murmura. Nos compadece a fala de padre Prudente, cauteloso, um verdadeiro conselheiro prudente, no nome e ao seguir seu modo de pensar. Sustentado pela fama de valente, conhecemos Amâncio, carregado em seu estigma pela sua liderança, capaz de esconder o medo, para demonstrar bravura. Adiante, Manuel Florêncio é visto pelas bravatas respondidas e prestes a florescer a cada discurso, com ou sem espinhos, perfurando a verdade. O amor furtivo de Nazaré e Pedrinho, marcado por julgamentos feitos pelas pessoas ao presenciarem as aventuras do jovem casal.

De início, os diálogos circunscritos por ditados populares são atravessados por uma linguagem profunda, propagados na narrativa. Logo nas primeiras páginas, confirmamos isso:

– Vai chegar o dia de faltar tudo.

– É o fim do mundo que vem aí.

– Que fim do mundo! Mundo lá tem fim? 

Eu cá acredito. Quem fez o mundo pode muito bem acabar com ele.

Conversa de padre pra amedrontar. Então quem fez o mundo ia ter o trabalho de fazer para desmanchar depois? Mundo não é qualquer brinquedo de menino. (A hora dos ruminantes, p.22)

Padre Prudente sabia aproveitar as palavras. A fala de cada um devia ser dada em metros quando ele nasce. Assim quem falasse à toa ia desperdiçando metragem, um belo dia abria a boca e só saia vento. (A hora dos ruminantes, p.34)

Os diálogos acima correspondem, respectivamente, a fala da precariedade da pobreza, as conversas arraigadas por uma linguagem convencional e reflexiva, temas como esses são presentes e enovelam a narrativa.

Sendo assim, esta breve apresentação da obra de Veiga foi um pequeno recorte, causado pela admiração do trabalho e legado que o autor nos deixou. Finalizo com o empréstimo da fala de Veiga: “A atividade que o ser humano menos gosta de exercer é pensar. Logo que ele se assenhoreia de uma pontinha mínima de qualquer conhecimento, já se dá por satisfeito”.

Categorias:Literatura

Marcado como:

1 resposta »

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s