Feminino

Tirei o anticoncepcional, sobrou eu

O que aconteceu quando eu parei de tomar anticoncepcional e aceitei o mergulho em mim

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Foto por: Pedrinho Fonseca

“Se você mergulhar dentro de si mesmo, você morre afogado ou morre de sede?”. Encontrei essa frase no chão da rua, no começo de um inverno. Parei para colher e plantar dentro de mim. Época ruim para germinar, eu sei. Mas o curioso é que, independentemente do que nasça,  tem época em que deixar de morrer não tem jeito. O mergulho é aceitar a morte. Ou pelo menos passar por ela. Não sabia que era isso quando aceitei mergulhar: quando aceitei olhar para dentro com mais consciência.

Mulher sangra, mulher transa e mulher engravida. Soube disso antes das primeiras gotas marrons sujarem minha calcinha. Sangrei. O próximo passo seria transar. Não queria engravidar. Então quase comecei junto: menstruação e pílula. Foi assim até eu descobrir que poderia não ser – há três meses.

Quis o controle do meu corpo. Conhecer meu ciclo sem hormônios externos. Será que a Lua tinha alguma para dizer sobre mim? Se o meu sexo estava programado. Parei, sem muita segurança. Acabou uma cartela e eu não quis começar outra. Me convenci: eu posso exigir que os homens usem camisinha, se quiserem (e se eu quiser) fazer sexo comigo. Sempre.

Tive medo. De mim, dos homens, de uma possível gravidez. Achei que era exagero. Conseguia sentir meu cheiro. Sentir desejo de bicho. Pensei que deu errado, que esse papo era muito natureba e que com certeza eu estava grávida. Foram 38 dias e, desses, 8 foram com chá de canela p’ra dentro. Eu nem fingia mais ter paciência.

Ginecologista, quero mais um método – além da camisinha. Diafragma. Ótimo. Poderia me tocar, me sentir, me escutar e não me entupir. Menstruei. 38 dias depois da última menstruação. Depois de achar que eu ia enlouquecer. Enlouquecer de medo de mim, dos homens, de uma possível gravidez. Quase voltei atrás. Quando estava insuportável, veio o alívio. Prazer e dor em forma de cólica e sangue. E lá ia eu, comigo mesma, para mais um mês. Ou um mês e oito dias. Ou um mês e alguns dias. O desconhecido era mesmo assustador.

Chorei no meio do supermercado, mandei mensagem para todas as amigas, falei que ia voltar com o anticoncepcional. Meu deus, eu não me conhecia. Não conhecia o corpo que sempre tive. Não me permitia sofrer, não me permitia querer ficar quieta, não me permitia querer transar loucamente, não me permitia não saber, não me permitia perder o controle. Eu ia morrer afogada em mim.

Até que me permiti nascer outra. Tenho me permitido todos os dias. Nascer completa de veias, de pele, de cinco sentidos. Com camadas e cascas a menos. Camadas que fingiam palidez não minha. Cascas que eu comprei com meu dinheiro. Aceitei a crise com toda sua intensidade destruidora de vácuos. Aceitei-me monstro que não sabe respirar. É difícil aprender comigo. Mas foi tudo que me sobrou.

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