Música

Ancestralidade e genética cultural

Pseudo-teoria e pseudo-poesia sobre reconhecimento identitário

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Recentemente brotou em mim o interesse por música africana e latino-americana. O primeiro passo, pensei, seria a pesquisa e aprofundamento em tais manifestações artísticas, o que me levou à constatação na prática do que eu já sabia em teoria.

Diferente dos produtos enlatados de origem europeia e principalmente estadunidense, além do universo de informações e personalidades que os circunda, que chegam a nós de maneira tanto imperceptível quanto inevitável, precisamos nos esforçar triplamente para acessar informações e produtos da cultura latino-americana e africana.

Isso acontece tanto, talvez, pelas próprias peculiaridades dessas culturas quanto como, com certeza, pelos processos de colonização cultural que o capitalismo e a globalização implicam.

Por outro lado, também é interessante perceber que, apesar das largas doses dessa cultura mainstream que nos é ministrada diariamente, conseguimos, não com muita dificuldade, sentir uma forte e imediata conexão emocional com o que é latino-americano e africano.

Não me aprofundarei em explicações científicas e socioculturais para explicar esse fenômeno. Bastar-me-ei de uma teoria que inventei para explica-lo: a nossa constituição genética guarda resíduos ancestrais que nos leva à identificação com essas culturas, por mais que nos distanciemos delas.

É nessa teoria que me respaldo para explicar a intensa e poderosa nostalgia que se apoderam dos meus sentimentos e me levam a comoção ao escutar essa música, intitulada “The Homeless Wanderer” da pianista etíope Emahoy Tsegué-Maryam Guébrou (disponível aqui). 

Emahoy (abreviarei para facilitar) é uma pianista, compositora e freira de 93 anos. Ela renega o pertencimento ao movimento do jazz etíope, que emergiu em seu país na década de 60 e é representado por inúmeros músicos, dentre as quais destaco Mulatu Astatke, um dos seus precursores.

Segundo ela, o seu estilo é baseado na música clássica ocidental, com inspiração na música bizantina da igreja ortodoxa. E eu não seria capaz de confrontar uma senhora de 93 anos lhe dizendo que as influências que têm sua música estão em seu sangue, em sua carne e em seus dedos – segundo a minha própria teoria da constituição genética e da identidade cultural, etc. Não seria capaz de fazer isso, imagine.

A questão é que ao escutar essa canção algumas imagens vieram de imediato à minha imaginação. Não precisei inventar nada, estava tudo lá, de bandeja para mim. A única tarefa que empreendi foi a de perscrutar mais atenciosamente a cena para conseguir descrevê-la.

Ps: A disposição do texto em versos não lhes dá a pretensão da poesia. Só os dispus dessa forma porque foi assim que vieram a mim. Por gentileza, dê play ao ler esses modestos versos). 

cheiro de terra molhada e sereno de noite

me insinuam essa imagem

que meus olhos só conseguem furtar

espiando por entre as frestas

de uma velha cerca de madeira

cuja textura sob meus dedos

grosseiramente me revela a tinta descascando

 

africa-1296896_960_720por essa fresta enxergo sendas de terra

recendentes a umidade

sobre a qual jazem galhos e folhas

que estalam sob o suave resvalar do vento

 

a vereda desemboca em uma casa antiga

cuja janela aberta me introduz em um cômodo

dentro, uma luz amarelo-alaranjada

incendeia suavemente o piano

também antigo, evidentemente.

as teclas brancas amareladas nas bordas

pela ação da poeira e do tempo –

isso tudo entrevejo.

 

ao piano, uma mulher

negra, reluzente

toca com longos dedos essa música

ancestral

que me aprofunda à minha infância

dança pelos meus antepassados –

cujos rostos desconheço,

mas os sei distantes

em outros continentes

onde, em uma casa antiga

de madeira

cômodo antigo

a nostalgia ganha corpo de música

por entre o som dos grilos

*

E para contribuir, mesmo que de maneira exígua, para a disseminação da música afro-latino-americana, deixo aqui algumas referências. A quem interessar possa:

Pirates Choice, álbum da banda senegalesa Orchestra Baobab, que combina ritmos espanhóis, africanos e cubanos.

Mais sobre Emahoy nessa matéria do The Guardian (em inglês):

Coletânea Ethiopiques com músicas de Emahoy 

Recomendo altamente também o aclamado documentário Buena Vista Social Club, do diretor Wim Wenders.

E a playlist que fiz com música latina e africana. Se joga!

Categorias:Música

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